segunda-feira, 1 de agosto de 2022
O Heptacampeonato
domingo, 31 de julho de 2022
O Primeiro Título no Futebol
A Liga iniciou os preparativos para a realização dos Campeonatos da Primeira e Segunda Divisões. Entre eles, estava a concessão de uma área de 200 metros de comprimento por 90 metros de largura, na Praça Floriano Peixoto, no Largo de São Braz, atendida pelo Intendente Municipal de Belém, Dr. Dionysio Bentes. O local foi cercado por vigas de acapu e ligadas por um cabo de arame, além da construção um palanque provisório de seis metros de comprimento por três metros de largura para as autoridades e famílias assistirem às partidas.
O campeonato contou com as participações do Grupo do Remo, do Guarany, do Panther Clube, do União Sportiva, do Internacional de Foot-ball Association e do Norte Club. As partidas eram disputadas entre 14h e 18h para aproveitar a luz do sol já que não existia um sistema de iluminação para jogos à noite.
O sistema de disputa era o mesmo implementado pela Football Association, da Inglaterra: pontos corridos — dois pontos em caso de vitória e um ponto se empate —, sendo campeão o time que somasse mais pontos ao final da competição. O jogo inaugural foi o empate de 2 a 2 entre União Sportiva e Internacional em 29/06, que contou com a presença do Intendente, Dionysio Bentes, e do Governador do Estado, Enéas Martins.
A estreia do Grupo do Remo se deu no dia 14/07/1913, uma segunda-feira. O jogo em questão foi aguardado com muito entusiasmo pela imprensa e pela numerosa torcida que compareceu à cancha, já que seria contra o valoroso União Sportiva, até então, bicampeão estadual. Entretanto, esse cartaz não intimidou os atletas azulinos, já acostumados com os grandes desafios desde as disputas náuticas. Isso refletiu no desempenho dentro de campo. Os remistas fizeram um jogo calmo e preciso, priorizando a aplicação tática entre as suas linhas, suplantando totalmente os unionistas que se limitaram a um jogo individual e descoordenado.
Coube ao capitão Antonico abrir o placar a favor dos azulinos, quase no final do primeiro tempo. O União partiu em busca do empate, mas a defesa remista estava esplêndida, rechaçando qualquer investida. No segundo tempo, mais uma vez Antonico, pela extrema-direita, vaza o gol adversário. Nesse embalo, Nahon marcou mais duas vezes a favor do Grupo do Remo. Quando faltavam apenas dois minutos para o apito final, Oscar diminuiu, mas a goleada já estava decretada: Grupo do Remo 4 x 1 União Sportiva.
A primeira equipe oficial era composta por: Bernadino; Galdino e Lulu; Carlito, Aimée e Chermont; Rubilar, Antonico, Nahon, Infante e Dudu. O jornal O Estado do Pará, de 16/07/1913, ressaltou os destaques do time azulino:
“Bernardino, como sempre, bom; Galdino e Lúlú, temíveis em suas linhas; Aimée, admirável e terrível naquella posição difícil de ‘center-half', foi um elemento magnífico na defesa ao lado de Carlito e Chemont que também contribuíram com uma bôa parcella de esforços para a formidável victoria do club. Da linha de ‘forwards' todos bons, salientando-se Nahon e Antonico que ‘marcaram’ os 4 ‘goals'".
No prosseguimento da competição, o Remo foi limando um a um os seus adversários. Emplacou uma sequência de vitórias, com os 4 a 0 sobre o Guarany, os 3 a 2 sobre o Panther, os 2 a 1 sobre o Internacional... Foi então que os azulinos conheceriam o seu grande adversário: o Norte Club, também chamado de Time Negra devido à cor da sua camisa.
O embate entre ambos foi marcado para o dia 05/10/1913, um domingo. O jogo era o mais aguardado da temporada, pois envolvia as duas melhores e mais vitoriosas equipes, sendo tratado como o encontro decisivo do campeonato. Até aquele momento, o Remo era o líder com oito pontos — quatro vitórias em quatro jogos — enquanto que o Norte Club possuía seis — três vitórias em três jogos.
Dada a importância da partida, os times se prepararam com antecedência. O Remo era considerado favorito por ter os melhores “elementos” da “velha guarda", com mais experiência nos fundamentos técnicos, especialmente no chute e drible, graças aos treinos de seu rigoroso capitão Antonico, além de um maior cartel de vitórias. Já o novato Norte Club era composto em sua maioria por estudantes, cujo capitão era Hugo Leão, que seria o principal fundador do Paysandu.
Como já era esperado, Remo e Norte travaram um belíssimo embate. Segundo O Estado do Pará, de 07/10/1913, ainda não havia ocorrido um match “tão correctamente jogado, tão enthusiasmado e tão bem desenvolvido”. Diante de numerosa assistência, o confronto foi equilibrado, mas quem saiu na frente foi o Remo, em jogada que se iniciou de uma cobrança de escanteio. O zagueiro “camisa-preta" Moraes tirou de cabeça e, da mesma forma, o azulino Chermont rebateu a bola, que fora defendida por Sylvio, no canto. Com a confusa disputa dentro da área, a bola acabou entrando para o fundo das redes. No segundo tempo, Hugo Leão empatou o jogo em 1 a 1.
Esse seria o único “tropeço” do Remo no campeonato, ainda havendo tempo para vencer o Belém Sport por humilhantes 10 a 0, em 26/10. Assim, foi só aguardar o empate entre Norte Club e Guarany em 1 a 1, em 15/11, para que o Grupo do Remo não tivesse mais chances de ser alcançado e, consequentemente, ser declarado Campeão Paraense Invicto de 1913.
Todavia, o Norte Club ainda recorreu à justiça para tentar anular o seu jogo contra o Guarany. Felizmente, no dia 20/11, a Liga julgou esse recurso improcedente, mantendo o resultado e, por tabela, o primeiro título azulino da história. Mas esse fato geraria consequências no futuro...
Na condição de Campeão Paraense, o Grupo do Remo só seria devidamente premiado no dia 20/02/1914, quando recebeu das mãos do Dr. Gama Malcher, presidente da Liga, uma bela taça importada da Alemanha pela firma Krause, Irmãos e Cia. Medindo 60 centímetros de altura e 700 gramas de peso, a taça descansava sobre um pedestal de cedro que continha uma placa com os dizeres: “Liga Paraense de Foot-Ball – Campeonato de 1913”, repousando num estojo de veludo roxo.
O futebol azulino já nasceu campeão!
quinta-feira, 14 de julho de 2022
Tricampeão Paraense em 1975 (Invicto)
Visando consolidar de vez a sua soberania no estado, o Clube do Remo repatriou o técnico Paulo Amaral, que havia treinado o time no segundo semestre de 1973. O primeiro teste foi a conquista de um torneio internacional, arrematado após vitórias sobre Robin Hood, do Suriname, por 5 a 2, Tuna por 2 a 0 e Paysandu por 1 a 0, gol de Dutra, no dia 2 de março de 1975, no Baenão.
Duas semanas depois, o Remo estreava no Campeonato Paraense com um passeio sobre o Sporting (7 a 0) e se manteve 100% até o último jogo da primeira fase do primeiro turno - os turnos eram divididos em duas fases -, quando empatou em 1 a 1 no Re-Pa de 27 de abril. Na fase final, vitória sobre Castanhal (4 a 0), empate com a Tuna (1 a 1) e vitória diante do Paysandu (1 a 0), esta em 25 de maio, deram o título ao Leão Azul.
No returno, a tônica foi a mesma. Na primeira fase, quatro vitórias e um empate. Já na fase final, após os 5 a 0 sobre o Castanhal e 1 a 0 sobre a Tuna, bastou um empate sem gols contra o Paysandu no dia 23 de julho, no Baenão, para o Remo sagrar-se campeão do segundo turno. Logicamente, nessa condição o Leão teria que ser consagrado campeão paraense... Mas não foi o que aconteceu.
Acontece que devido ao esdrúxulo regulamento, mesmo tendo arrematado os dois turnos, o Remo ainda não havia garantido o título. No máximo, teria a vantagem do empate na grande decisão contra o Paysandu, vice nas duas etapas anteriores. Caso perdesse, uma outra série decisiva seria disputada.
Chega então a memorável data de 3 de agosto de 1975. O Baenão, palco da peleja histórica, estava completamente tomado por exatos 29.940 torcedores, um dos maiores públicos do Evandro Almeida em todos os tempos, que pulsou quando adentraram em campo Dico; Rosemiro, Dutra, Rui e Cuca; Elias e Roberto; Prado, Mesquita, Alcino e Amaral. A Máquina Azul comandada por Paulo Amaral.
Com a bola rolando, o que se viu foi um Remo inicialmente jogando com o regulamento embaixo do braço, enquanto que o Paysandu, apesar de retraído no começo, se aproveitou da apagada atuação de Roberto no meio-campo, sobrecarregando Elias, necessitando que Mesquita viesse ao seu auxílio. Isso diminuiu o poder fogo azulino e facilitou para os bicolores, que perderam oportunidades de sair com a vitória no primeiro tempo.
Na volta do intervalo, os listrados se lançaram ao ataque, mas após a defesa azulina rechaçar, Elias lançou Roberto, que, marcado por Waltinho e Gilberto, e fez um belo corta-luz para Mesquita finalizar no canto e inaugurar o placar aos 45 segundos, quase colocando o Baenão abaixo com a explosão da torcida. Aos oito minutos, após jogada de Prado, Rosemiro lançou para Alcino, que dominou com muita categoria no peito, abriu para Mesquita que fuzilou o arco adversário. Reginaldo rebateu e Alcino aproveitou, marcando o seu 21° gol e se tornando, pela terceira vez consecutiva, o artilheiro do campeonato.
O Paysandu até descontou e chegou ao empate através de Bacuri, mas como ele estava impedido, o árbitro Saul Mendes anulou o gol, mantendo os 2 a 1 que perdurou até o final da partida. A vitória do Remo foi mais que merecida. Naquele dia, o Filho da Glória e do Triunfo chegara ao seu 51° jogo em três anos sem saber o que era uma derrota no Campeonato Paraense. Um feito único no Brasil. Um tricampeonato invicto que seria eternizado com as primeiras estrelas acima do escudo azulino.
sábado, 25 de junho de 2022
Bicampeão Paraense em 1974 (Invicto)
A edição de 1974 do Campeonato Paraense foi, talvez, a mais disputada de todos os tempos, muito em função do seu excêntrico regulamento, dividido em três turnos. Acontece que o desenrolar dessa fórmula possibilitava uma condição ainda mais única e especial: o Supercampeonato, disputado entre os vencedores de cada turno para, enfim, se definir o campeão paraense. E foi o que aconteceu.
O primeiro turno foi vencido pelo Paysandu, enquanto que o Remo levou o segundo. Já o terceiro teve como ganhadora a Tuna, em uma decisão emocionante contra o Leão, que merece um destaque a mais. Depois de empatarem em 1 a 1 no tempo regulamentar e em 2 a 2 na prorrogação, a Lusa levou o título apenas na segunda série de penalidades, ganhando por 10 a 9 - Marinho foi quem perdeu para o lado azulino -, naquele que, possivelmente, foi o jogo mais longo da história do Parazão.
Mas aqui cabe uma ressalva. Mesmo com esse revés nas penalidades, o Remo não perdeu a invencibilidade na competição. Afinal, a disputa de pênaltis não entra nas estatísticas dos times e jogadores, por ser um procedimento que não faz parte, de fato, da partida, prevalecendo o resultado final (empate).
Com o Supercampeonato definido, o Trio de Ferro inicia a briga pelo título máximo do futebol paraense. O Remo assistiu de camarote o empate de 0 a 0 entre Paysandu e Tuna no dia 11 de dezembro de 1974, que abriu o Super. Diante desse resultado, uma vitória sobre os bicolores no dia 15, no Baenão, colocaria o Leão em vantagem na disputa.
Naquele Re-Pa acabou prevalecendo a lógica. O Remo venceu por 2 a 0, com gols de Alcino aos 33' do primeiro tempo e Mesquita aos 7' do segundo. A emblemática vitória não apenas sepultou as chances dos bicolores, como também marcou o melancólico fim da "geração do Quarenta" do rival, que se sobressaía desde a segunda metade dos anos 50. O invencível Leão Azul, sob os comandos de Paulinho de Almeida, representava os novos tempos no futebol paraense e partia em busca de mais de mais um título invicto.
Em um cenário muito semelhante ao ano anterior, após eliminar o maior rival, o Remo precisava apenas de um empate no dia 18 de dezembro, contra a qualificada Tuna de Miguel Cecim para sagrar-se campeão. Mas, diferentemente, a vitória veio com um gol memorável de Alcino, imortalizado pelas lentes do repórter Braz da Rocha ("A Província do Pará") e relembrado nesse relato emocionante do apaixonado torcedor azulino Rocildo Oliveira:
"35 minutos do segundo tempo, a experiente equipe do professor Paulinho de Almeida arma o contra ataque. A bola chega aos pés do veloz e habilidoso ponteiro-esquerdo Neves que levanta a cabeça e lança o balão de couro para o interior da grande área. Por um segundo o torcedor emudece, com o seu olhar atento segue a trajetória da bola, que muito antes de tocar o chão é alcançada pela testada fulminante, do gigante azulino Alcino. O silêncio sepulcral da lugar a uma explosão de risos e choros. O grito de gol ecoava por toda Belém, por todo Estado do Pará...".
Esse foi o 12° de Alcino, que tornou-se artilheiro da competição e fez explodir o Baenão completamente lotado após a conquista de mais um campeonato. Em outra campanha sensacional, o Clube do Remo venceu 12 jogos e empatou seis, marcando um total de 28 gols e sofrendo apenas cinco. Números espetaculares que consagraram o Filho da Glória e do Triunfo como o superbicampeão paraense de 1974.
quinta-feira, 23 de junho de 2022
Campeão Paraense em 1973 (Invicto)
Faziam cinco anos em que o Clube do Remo não conquistava o Campeonato Paraense. Depois do título invicto de 1968, o Mais Querido esteve muito perto de encerrar o jejum em 1971 e 1972, mas amargou vices contra o maior rival em decisões emblemáticas. Entretanto, a espera remista acabaria em 1973 com uma campanha esplendorosa.
Vindo de uma bela apresentação no Campeonato Nacional no ano anterior, o Leão Azul credenciou-se como o grande time do estado, demonstrando isso dentro de campo ao sagrar-se mais uma vez campeão paraense de forma invicta. Os azulinos não deram quaisquer chances aos adversários, arrematando os dois turnos e, consequentemente, o título.
Ainda assim, é óbvio que a conquista não seria permeada por polêmicas - algo muito comum naqueles tempos. Na reta final da competição, o Remo, que já era campeão do primeiro turno, liderava a tabela de pontos, sendo seguido por Tuna, Sport Belém e Paysandu, em sequência.
Isso fez com que o último jogo da campanha, contra o Paysandu, no dia 12 de agosto de 1973, ganhasse contornos de dramaticidade, principalmente pela situação delicada do rival. Num Baenão superlotado, o Remo jogava melhor, mas era o Paysandu que vencia por 1 a 0. Isso até 22' do segundo tempo, quando o juiz José Luiz Barreto marcou um pênalti do listrado Diogo no azulino Augusto.
Os bicolores não aceitaram e iniciaram uma confusão, ainda mais inflamados quando Alcino foi comemorar a marcação da penalidade, chutando as redes adversárias. Nisso, o árbitro, sem esperar os 20' necessários, optou por suspender a partida e dirigiu-se com os auxiliares para o túnel onde estava a torcida do Paysandu. Acabou sofrendo um trauma facial provocado por uma garrafa de cerveja. A partida foi anulada e o episódio ficou conhecido como o "Domingo das Garrafadas".
A remarcação do embate se deu dois dias depois, em 14 de agosto, novamente no Baenão, com policiamento reforçado e nova arbitragem. Dessa vez, o Leão aproveitou que o rival estava desfalcado - Prado, expulso no domingo anterior, antes da confusão, estava fora pela "Lei do Cão" - e venceu com autoridade por 2 a 1, gols marcados por Roberto aos 17' do primeiro tempo e Alcino aos 29' do segundo. Resultado este que alijou o Paysandu do campeonato.
Ao Remo, bastava um simples empate contra a Tuna no último jogo, no Baenão, dia 17 de agosto. E ele veio com 0 a 0 morno, mas suficiente para tirar o grito de campeão da Nação Azulina que estava há cinco anos entalado. A festa, justificada, foi tanta que perdurou por todo o fim de semana. O ponto negativo foi o falecimento de um torcedor na piscina da sede social durante a comemoração.
Interessante observar que mesmo com o sucesso dentro de campo, à beira dele nem sempre foi as mil maravilhas. O treinador Aloísio Brasil, devido a problemas no relacionamento com alguns jogadores, chegou a deixar o cargo, sendo substituído por Wilson Santos, mas retornou auxiliado por Cléber Camerinho e François Thym.
Mas nem mesmo essa mudança no comando técnico atrapalhou a trajetória remista. Os números do Filho da Glória e do Triunfo provam isso: nove vitórias e três empates em 12 jogos, com 25 gols marcados e apenas três sofridos, que lhe garantiram os dois turnos e, consequentemente, o campeonato. De quebra, o Remo ainda teve o artilheiro do certame - Alcino, com sete gols.
O Primeiro Duelo Futebolístico entre Pará e Amazonas
É no distante ano de 1909 que acontece o jogo inaugural, na história, entre clubes de futebol dos dois maiores Estados da Amazônia brasileira, envolvendo as equipes do Brasil Football Club (de Manaus, capital do Amazonas) e o Sport Club do Pará (de Belém, capital do Pará).
Naquele ano Manaus ainda vivia o fausto econômico ocasionado pela exportação da borracha e,com uma intensa vida cultural,a sociedade amazonense,em suas horas de lazer,cada vez mais se dedicava às práticas esportivas.
Trazido à capital do Amazonas pelos ingleses,o "Football" foi timidamente ganhando espaço e aos poucos desbancando a preferência do público local pelo turfe e ciclismo.
Em 1909,enfim,o futebol caía nas graças e na preferência dos manauaras de todas as classes sociais,tanto é que somente nesse ano são fundados em Manaus 18 clubes para a prática do esporte bretão.
Porém de todos esses clubes, o Racing e o Brasil eram os principais pois eram os de maior torcida, os mais competitivos e que continham os melhores jogadores do Amazonas. Os encontros entre Racing e Brasil era considerado a maior rivalidade do futebol amador amazonense daquele ano.
Belém era a outra capital do Norte que na época também usufruía da riqueza proporcionada pela exportação gomífera. Na capital do Pará o futebol foi introduzido antes do quê em Manaus,inclusive o campeonato paraense já era disputado desde 1906. Haviam na cidade várias boas equipes de futebol que disputaram o certame estadual de 1908/1909, entre elas o Pará Club, Belém Football Club, União Sportiva e, lógico, o Sport Club (que foi vice-campeão).
A CHEGADA DOS JOGADORES PARAENSES
Mas, em abril de 1909, um grupo de jogadores vindos de Belém do Pará, desembarcava de um vapor no Porto de Manaus, alguns deles eram Arnaldo Andrade, Eirado Júnior, Djalma Machado, Campbell Pena e Tavares Cardoso.
Na cidade eles foram acolhidos por um conterrâneo seu chamado Luiz Paulino, um esportista paraense que residia em Manaus.
Os atletas visitantes pertenciam ao Sport Club do Pará, veterana agremiação de Belém que foi o primeiro clube a praticar o futebol no Pará (em 1898) e disputava as primeiras edições do campeonato paraense.
Já estando os jogadores visitantes devidamente alojados em Manaus, Luiz Paulino logo mandou uma carta para um jornal local,f azendo um convite de um amistoso de seus companheiros para com uma das principais equipes do futebol Baré em evidência naquele momento: o Racing.
A diretoria do clube alvinegro manauara leu o convite e aceitou o desafio que ficou marcado para se realizar no dia 4 de abril, num domingo, na Praça Antônio Bittencourt (conhecida hoje como Praça do Congresso).
Mas para decepção dos atletas paraenses, no dia marcado para o jogo, a diretoria do Racing manda uma carta para os visitantes comunicando-lhes que não iam mais participar do encontro. Não se sabe o motivo que levou o clube amazonense a tomar essa decisão.
Mesmo desanimados com a inesperada notícia, os paraenses não se deixaram abater e,em cima da hora, resolveram lançar o desafio ao maior rival do Racing: o Brasil Football Club.
Naquele momento os jogadores do Brasil estavam fazendo um treino e aceitaram de bom grado realizar o jogo, afinal possuíam bons atletas como Pingarilho, Tancredo Costa e o inglês Huascar Purcell.
BRASIL X SPORT CLUB DO PARÁ - JOGO INTERESTADUAL TERMINOU COM VITÓRIA PARAENSE
Era o dia 4 e abril de 1909 e a Praça Antônio Bittencourt (que era o campo oficial do Brasil) estava naquela tarde com seus arredores completamente lotados, com grande presença de populares e membros da elite.
Precisamente às 17 horas o juiz inglês Bolivar Purcell dava início ao aguardado jogo, cabendo a saída ao Brasil, através do centroavante Huascar Purcell.
O jogo se mantém equilibrado,a torcida apóia o time local, mas também aplaude os jogadores paraenses pelas suas certeiras combinações de passes e tática, mostrando que eram conhecedores a fundo do futebol.
Huascar, do Brasil, faz um passe para Compton (um outro britânico do time amazonense). Este, de posse da bola, avança para o campo do Sport Club. Mas Luiz Paulino, que seguia Compton de perto, consegue tomar-lhe a bola e,em disparada,vai levando a pelota e driblando os adversários quando, já próximo da trave do Brasil,desfere um forte chute marcando assim o primeiro gol dos paraenses.
Recomeça a luta e os jogadores se batem com valentia,com a bola num instante prevalecendo no lado do campo do Brasil e noutro estacionando no campo do Sport Club.
Compton e Huascar chutam várias vezes contra o gol do Sport Club, mas todas as tentativas são rebatidas pelo goleiro Djalma Machado.
Faltavam cinco minutos para acabar o primeiro tempo quando Luiz Paulino, Newton e Andrade,trocando passes,levam a bola para o campo do time amazonense.Já próximo do gol do Brasil,Paulino faz um passe para Newton e este,não estando numa posição firme, passou a bola a Andrade que com outro petardo assinalou o segundo gol do Sport Club do Pará.
E assim, com a vantagem de dois gols do time visitante, terminava o primeiro tempo.
Depois de 10 minutos de descanso, reiniciava o jogo na sua etapa final. Mas, apesar das tentativas, não houve alteração do placar em seu segundo tempo, pois os jogadores se mostravam bastante cansados. Porém, Fernando Silva, do Sport Club, por pouco não fez um belo gol quando do meio do campo deu um forte chute, passando a bola por cima da trave do Brasil.
A partida terminou às 18 horas com a vitória do Sport Club do Pará por 2 x 0, um grande resultado adquirido no campo inimigo. A torcida ergueu diversos "vivas" aos jogadores dos dois clubes e a imprensa local classificou o jogo como o mais importante, até então, realizado no Amazonas.
Somente a partir de 1918 que partidas de futebol entre amazonenses e paraenses voltaram a se realizar, sendo frequentes nos anos seguintes.
Fontes: "Jornal do Commercio", jornal "O Amazonas".
Texto: Gaspar Vieira Neto (historiador amazonense).
terça-feira, 21 de junho de 2022
Os Primórdios do Futebol Paraense
O surgimento do futebol em terras paraenses é permeado de incertezas. Os registros mais antigos são escassos e inconclusivos, mas apontam que os primeiros jogos parecem ter sido disputados a partir do final do século XIX. O jornalista Ferreira da Costa em seu livro Parazão Centenário (2012) fez um compilado desses indícios, com citações da prática do esporte entre 1890 e 1896. Essa última data é corroborada pelo historiador Ernesto Cruz, na sua obra "História do Clube do Remo" (1970), que traz ainda uma nota do jornal "Folha do Norte", de 24/12/1903, assinada pelo leitor "M. F.", que diz o seguinte:
"(...) em 1896 se disputavam, por iniciativa da Associação Dramática e Recreativa e Beneficente, várias partidas de futebol, na praça Batista Campos...".
Pedro Brandão, em seu trabalho As primeiras formas de organização do futebol em Belém do Pará (1896-1910), encontra como registro mais antigo do futebol paraense uma nota do jornal Folha do Norte, de 30/07/1898, noticiando que a diretoria do Sport Club do Pará estaria organizando uma partida para o dia seguinte. Ferreira vai ao encontro dessa informação, destacando ainda que esse seria o primeiro time paraense de futebol, fundado por La Rocque e outros, que jogaria contra um time de ingleses no campo da Praça Floriano Peixoto.
Em 1906 ocorreu a tentativa inicial da realização de um campeonato, que seria organizado pela Pará Foot-Ball Association League, e disputado em turno único. A primeira partida se deu em 16/12/1906 entre os times do Pará e do Belém. Porém, devido às divergências entre os participantes, a competição foi suspensa no mês de junho de 1907 e não teve a sua conclusão.
Em 19/08/1908, fundou-se a Liga Paraense de Foot-Ball. Essa, por sua vez, teve êxito e conseguiu organizar o primeiro Campeonato Paraense da história, vencido pelo União Sportiva, que recebeu a Taça Pará. O Sport Club do Pará foi o vice. Em 1909, o campeonato não foi disputado, retornando em 1910, tendo novamente o União como seu ganhador. Pouco se sabe dos detalhes dessa conquista, apenas de citações posteriores, a exceção de uma rica matéria da revista portuguesa Tiro e Sport, de 15/07/1910 sobre a abertura oficial do campeonato, em 13/05.
Vale ressaltar que desde meados de 1850, era muito forte a influência europeia na cidade de Belém, sobretudo dos ingleses, que passaram a comandar setores-chave da cidade, como as companhias de navegação e energia, fenômeno impulsionado pelo Ciclo da Borracha na Amazônia (1879-1912). Belém vivia a sua chamada belle époque, na qual experimentou várias mudanças não apenas infra-estruturais, como também multiculturais. Era comum, por exemplo, que os jovens de famílias da elite fossem estudar na Europa. Essa onda facilitou a entrada de Belém como uma das primeiras capitais brasileiras a desenvolverem o esporte.
Aliás, é interessante destacar como a influência inglesa estava presente também nos meios de comunicação. Sem ainda possuir uma identidade própria, o futebol era referenciado com palavras de sua língua materna. Os jogadores eram chamados de footballers, os zagueiros de backs, os meio-campistas de center-half, os atacantes de forwards e por aí vai. Os matchs (jogos) e trainings (treinos) eram organizados pelos capitain (capitães) dos teams (times).
Em seus primórdios, o futebol, assim como qualquer outro esporte, ainda era praticado de forma amadora, como uma atividade de lazer. Ainda não havia a ideia de profissão, logo os times eram formados por jogadores que trabalhavam em outras áreas, tais como médicos e advogados, geralmente restrito aos segmentos mais elitizados. Como não precisavam ficar a maior parte do dia trabalhando, esses homens podiam até mesmo se dedicar à prática de diversos esportes, como o remo, a natação e o turf (corrida de cavalos). Esses desportistas ficaram conhecidos como sportman, sendo cultuados pelo seu privilégio físico e social.










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