sábado, 15 de agosto de 2026

Texto – "O poeta do povo e o time do povo: Bruno de Menezes, torcedor azulino"


Homenagem a Bruno de Menezes na praça homônima em São Brás, Belém. Foto: Gabriel Borges Souza.

Bruno de Menezes foi um dos maiores nomes da literatura paraense, sendo um dos precursores do movimento literário modernista do Pará. Porém, o que pouca gente sabe da sua história é a sua relação com o Clube do Remo. Em sua excelente pesquisa, Gabriel Borges Souza (@tupiguaranigga), doutorando em História Social da UFPA, discute sobre esse tema, mostrando que dentro de Bruno batia um coração azulino.

O texto feito por Gabriel foi gentilmente cedido à Enciclopédia do Leão para divulgação e pode ser conferido a seguir, com algumas contribuições de pesquisas próprias:

Já faz alguns anos que, em conversas informais com meu compadre Murilo Menezes — professor de História e pesquisador de ritmos amazônicos — sobre os grandes nomes do movimento literário modernista paraense, levantamos a hipótese de que Bruno de Menezes (1893–1963), devido aos seus interesses pessoais e inclinações intelectuais, foi em vida um torcedor do Clube do Remo, como nós.

Bruno de Menezes, poeta, ensaísta, folclorista, nasceu no bairro do Jurunas, em Belém, e foi precursor do movimento modernista que fervilhou a cena literária e artística belenense durante os anos 1920. De personalidade ímpar, com um alto-astral peculiar, como seus amigos de letras e boemia deixaram registrado em inúmeras memórias, seja na imprensa, seja em obras literárias, Bruno foi um grande intelectual do século XX, com “i” maiúsculo, embora parecesse não se importar em se enquadrar nesse adjetivo.

Fosse pela beira do Guajará, no Ver-o-Peso, entre goles de cachaça e tira-gosto de peixe frito; fosse pelos quintais do Jurunas, em meio aos batuques dos terreiros; fosse pelas festas juninas das ruas do bairro enegrecido do Umarizal, mais do que ser um intelectual, Bruno de Menezes se esforçou em conhecer os costumes, os modos e a cultura do seu povo e da sua cidade.

Pois bem, voltemos ao futebol. Como provar, então, que Bruno de Menezes foi torcedor do Clube do Remo? Quase que naturalmente, alguns indícios foram me surgindo. Por exemplo: no livro de crônicas memorialísticas Gostosa Belém de Outrora (1966), publicado por De Campos Ribeiro, amigo íntimo e par intelectual de Bruno, o literato nos conta um pouco sobre um bloco carnavalesco fundado em 1933, do qual ele, Bruno de Menezes, Jacques Flores (Luís Teixeira Gomes), Andrelino Cotta e outros nomes da mocidade literária e boêmia de Belém faziam parte. 

O bloco, batizado “Pagés da Boiúna”, tinha como proposta a criação de uma alegoria que representasse a Cobra Norato e, ao longo de seu percurso, entoar sambas e choros. A saída do bloco se deu na garagem do “Club do Remo”, e o término aconteceu na Praça da República, onde os literatos — encarnando pajés de nomes sugestivos como “Jacaré Tinga”, “Rei Nagô” e “Cabôco” — seguiram bebericando e recitando seus versos, segundo o próprio De Campos Ribeiro.

Chama atenção a escolha da garagem do Clube do Remo como ponto de partida do bloco carnavalesco dos literatos-foliões, mas a informação ainda não me bastava para definir Bruno de Menezes como torcedor azulino.

Anos depois, encontrei outro indício importante, desta vez, mais íntimo. Ao assistir ao documentário Geração Peixe Frito (direção de Paulo Nunes e Vânia Torres, 2019), em que são apresentados aos espectadores alguns cômodos da casa onde o poeta negro morava, na rua João Diogo, no bairro da Cidade Velha, deparei-me, em um de seus frames, com a imagem do filho de Bruno de Menezes, o padre Geraldo Menezes, relatando algumas memórias afetivas sobre o pai. Ao fundo, ornamentando um móvel de madeira, estava uma flâmula estampando o escudo do Clube do Remo.

Poderia me satisfazer com mais este indício, desta vez mais direto e familiar, mas, historiador que sou, ainda me faltava uma fonte mais concreta... e ela me apareceu há alguns dias.

Em pesquisa, folheando algumas edições da revista Asas da Palavra, vinculada à Universidade da Amazônia, encontrei uma edição publicada em 1996 que teve Bruno de Menezes como tema central. Entre muitos textos interessantes de nomes consagrados da literatura paraense, como Dalcídio Jurandir (1909–1979) e Abguar Bastos (1902–1995), estava publicado “Meu pai, Bruno de Menezes”, um compilado de memórias de Maria de Belém Menezes sobre sua vida ao lado do pai.

Em meio a diversos causos interessantes, Maria de Belém fez questão de pontuar que seu pai era, como bem diz o hino, um azulino da cidade. Em suas palavras:

“Torcedor incondicional do Clube do Remo, passou-nos a força da paixão azulina, que continua nos netos e bisnetos. ”

Pronto. Estava confirmada a hipótese que eu e meu compadre Murilo vínhamos levantando há anos. Bruno de Menezes, o poeta do povo, foi um torcedor incondicional do Clube do Remo — característica que combina muito bem com tudo o que ele foi em vida.
Hoje, as questões de identidade têm ganhado cada vez mais espaço no debate público. Tratando do futebol e, sobretudo, do Clube do Remo, temos visto, ao longo dos anos, a crescente afirmação de que o Remo é o time do povo. Ter um torcedor do perfil de Bruno de Menezes auxilia ainda mais — não na construção, mas na afirmação de que o clube representa as camadas populares da cidade de Belém.

O marketing do clube parece incorporar esse discurso. Como prova disso, podemos citar o terceiro uniforme de 2020, quando o clube, por meio de uma camisa vermelha ornamentada com motivos marajoaras, prestou homenagem à Cabanagem, a maior revolução popular da história do Brasil. Na camisa, a frase “O espírito guerreiro do Clube do Remo” simboliza muito bem a identidade popular da torcida azulina, que resiste socialmente e também resistiu a períodos difíceis no futebol.

Nas margens do Guajará nasceu o time do povo, no mesmo lugar onde Bruno de Menezes se reunia em busca de inspiração para seus versos. Entre o rufar dos batuques, as folias dos bumbás e tantos outros festejos da cultura popular que o poeta admirou e registrou, está confirmado: no futebol, o poeta negro fez do Clube do Remo, o Leão Azul de Antônio Baena, seu grande amor.

Belém do Pará, julho de 2025.
Gabriel Borges Souza é doutorando em História Social da Amazônia pela UFPA, pai da Maria Helena e torcedor apaixonado pelo Clube do Remo.

Nota: o texto foi gentilmente cedido pelo autor à página em junho de 2026. Uma enorme contribuição à memória de um dos maiores nomes da literatura paraense, resgatando um aspecto pouco explorado da sua história: a relação com o Clube do Remo. Como contribuição, seguem duas observações que estreitam ainda mais a relação de Bruno de Menezes com o Leão Azul:

1. Segundo pesquisas de Adenirson Olivier, com base nos dados disponíveis no livro História do Clube do Remo, de Ernesto Cruz, Bruno de Menezes era jogador do Guarany na primeira partida confirmada da história do Clube do Remo, em 21 de abril de 1913, atendendo pelo apelido de Bento.

Fonte: História do Clube do Remo, de Ernesto Cruz.

2. No dia 16 de agosto de 1931, a Folha do Norte publicou um poema de Bruno de Menezes em homenagem ao 20º aniversário de Reorganização do Clube do Remo.

Folha do Norte, 16 de agosto de 1931