Em 1972, o Clube do Remo se tornou o primeiro time paraense a disputar a principal divisão do Campeonato Brasileiro, na época chamado de Campeonato Nacional ou Taça de Prata. Entretanto, em que pese a grande campanha azulina, muitos rivais tentam desmerecer o feito, alegando que o Remo teria se beneficiado da politicagem na época da ditadura militar para participar da competição no lugar do Paysandu, que se seria o detentor de direito da vaga.
Infelizmente, ao invés de ser combatida ou refletida, essa história acaba sendo propagada por segmentos da imprensa, como se observa nesse trecho retirado do blog do conhecido jornalista Juca Kfouri em 2014:
"Durante os anos de chumbo, o time dos militares era o Clube do Remo, por conta da relação com então ministro Jarbas Passarinho.
A influência era tanta que, mesmo sendo o campeão estadual com direito assegurado ao Campeonato Nacional, o Paysandu teve que ceder a vaga ao Remo, em silêncio e sem discussão".
Pois bem, aqui vão os fatos sobre o tema:
1 – O CAMPEONATO NACIONAL
Na virada dos anos 60 para os 70, com a defasagem da Taça Brasil e o crescimento do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) instituiu o Campeonato Nacional de Clubes, que passaria a ser disputado a partir de 1971. Em sua primeira configuração, foi organizado em "Divisão Extra" e "Primeira Divisão", equivalentes às Séries A e B, respectivamente.
Enquanto que na Divisão Extra estavam basicamente os mesmos clubes do "Robertão", com cinco clubes cariocas, cinco paulistas, três mineiros, dois gaúchos, dois pernambucanos, um paranaense, um baiano e um cearense – o único estado incluído que não fazia parte do "Robertão" – , a Primeira Divisão incorporava os times dos torneios Norte-Nordeste e Centro-Sul. O Pará se fez representado pelo Remo, que sagrou-se campeão inter-regional e vice-campeão nacional.
Porém, em 1972 a CBD resolveu ampliar o campeonato, incluindo um segundo clube baiano, além de representantes de Alagoas, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Jornal dos Sports (RJ), 25 de julho de 1972.
2 – OS CRITÉRIOS DE PARTICIPAÇÃO
Até o final dos anos 80, o sistema de ascenso e descenso entre as divisões brasileiras ainda não estava bem estabelecido como nos moldes atuais. Tanto é que, GERALMENTE, a vaga no campeonato era decidida via campeonatos estaduais do ano anterior. Mas isso NÃO era uma regra. Na verdade, no que diz respeito à divisão principal do Campeonato Nacional, outros fatores eram importantes, especialmente no aspecto FINANCEIRO, em detrimento ao DESPORTIVO, conforme pode ser interpretado no terceiro artigo do regulamento do Campeonato Nacional de 1971, divulgado pelo Jornal dos Sports (RJ), em 5 de fevereiro de 1971:
"3.º — O campeonato da DIVISÃO EXTRA será disputado pelas Associações escolhidas, anualmente, pela Diretoria da CBD, que levará em conta, dentre outros, os seguintes fatores primordiais: densidade demográfica das capitais onde deverão ser realizados os jogos; capacidade e segurança dos estádios dessas capitais e capacidade técnica e econômico-financeira das Associações indicadas".
Em contraste, na Primeira Divisão, por exemplo, era explícito que a participação de um time só ocorreria mediante aos seus resultados esportivos, conforme indica o sexto artigo do regulamento:
"6.º — As Associações participantes do campeonato da PRIMEIRA DIVISÃO serão indicadas pelas Federações integrantes das respectivas REGIÕES, que se basearão nos resultados dos campeonatos estaduais ou de torneios especiais realizados com a finalidade específica da escolha dos participantes no campeonato nacional".
Jornal dos Sports (RJ), 5 de fevereiro de 1971.
A ideia era clara: a Divisão Extra do Campeonato Nacional precisava gerar grandes receitas. Para isso, precisava contar com grandes clubes, grandes jogadores, grandes estádios, grandes torcidas... O dinheiro sempre mandou no futebol. Tanto é que, para o ano de 1972, uma emenda no regulamento da competição obrigava os clubes a estimularem as suas torcidas a proporcionarem uma renda mínima de Cr$ 80.000,00 por jogo.
Jornal dos Sports (RJ), 24 de agosto de 1972.
Mais uma prova de que o critério financeiro sobrepujava o desportivos é que o campeão da Primeira Divisão de 1971, o Villa Nova-MG, não teve direito de disputar a Divisão Extra de 1972. Mas por que o vice, justamente o Remo, disputou?
3 – A ESCOLHA DO REMO
Está claro, portanto, que a participação na principal divisão nacional tinha que atender primariamente a obrigações financeiras e não desportivas. Nesse aspecto, com o Pará sendo contemplado com uma vaga na competição, qual era o clube que gozava de maior torcida e gerava mais rendas em seus jogos, sendo historicamente conhecido como "O Mais Querido"? A resposta é muito óbvia e evidenciada pela A Província do Pará de 20 de julho de 1972, quando ainda se especulava o aumento de participantes no Campeonato Nacional – inicialmente 25, mas que se concretizaria em 26 participantes:
"REMO ESTÁ COTADO PARA O NACIONAL
A tabela do Campeonato Nacional será mantida em sigilo, mas sabe-se extra-oficialmente que este ano estarão incluídos mais cinco clubes, além dos outros 20 concorrentes que participaram do Campeonato anterior, perfazendo um total de 25 candidatos ao título. Há ainda algumas suposições quanto aos escolhidos, mas por méritos, por qualidade técnica, e pela capacidade de seus estádios, espera-se a presença de Manaus, que seria representada pelo Nacional; de Belém, pelo Remo, que são os times de maior popularidade nestes Estados e cujas rendas poderão atender às expectativas da CBD. Fortaleza, seguramente, terá mais um candidato no torneio, restando, portanto, duas vagas para completar a série de 25 que talvez venham a ser preenchidas por Ceará e América".
Isso era uma realidade. Em pesquisas/concursos de torcidas promovidos pelo IBOPE em 1969, Placar e Jornal dos Sports, ambos em 1973, o Remo aparecia como o time de maior torcida do estado, com boa margem em relação ao segundo colocado. Mas para além da teoria, o Leão Azul mostrou na prática que era um sucesso de público no Campeonato Nacional, superando com folga a média de arrecadação por jogo estabelecida pela CBD, segundo informa O Liberal de 4 de dezembro de 1972:
"AS RENDAS
Nos 19 jogos que disputou em Belém (já que o Remo jogou 6 vezes fora de casa — 1 em Recife, 1 em Natal, 2 em Salvador, 1 em Aracaju e 1 em Maceió), o Clube do Remo alcançou rendas consideradas muito boas, ultrapassando largamente a média mínima estabelecida pela CBD, de 80 mil cruzeiros.
A mais baixa renda foi verificada no jogo contra o América Mineiro — apenas Cr$ 58.700,00 — enquanto que a mais alta se registrou frente ao Coritiba — Cr$ 139.228,00. Em 10 jogos a renda ultrapassou a casa dos 100 mil cruzeiros; em 2 passou dos 90 mil; em 4 foi superior a 80 mil e nos outros 3 ficou entre os 50 e os 60 mil.
O total de arrecadação bruta nos jogos realizados no estádio Evandro Almeida chegou à soma de Cr$ 1.924.478,00, o que dá a média de Cr$ 101.288 por jogo.
Pode dizer-se, assim, que até mesmo no aspecto financeiro, a campanha do Clube do Remo foi um autêntico sucesso".
A escolha do Remo foi um acerto.
4 – O CHORO DOS RIVAIS
Mesmo diante do exposto, ainda tem torcedores rivais que alegam que o Paysandu era o detentor por direito da vaga, já que era o campeão paraense de 1971. Entretanto, como se observa, isso não era garantia de participação no Campeonato Nacional e não foi exclusividade do Pará. Os representantes de Alagoas e Amazonas foram CRB e Nacional, respectivamente, mesmo não sendo os campeões estaduais de 1971 – o Fast foi o campeão amazonense e o CSA, o alagoano.
Mas tudo bem, o argumento é válido. Só que existe um detalhe muito importante nessa história: nesse momento, o Paysandu NÃO era o campeão paraense de 1971 legalmente.
Em 1971, o Campeonato Paraense foi decidido com uma vitória de virada de 3 a 2 do Paysandu sobre o Remo, na Curuzu, placar definido apenas na prorrogação. Acontece que, se embasando no regulamento, o Remo entendeu que uma nova partida deveria ser disputada. Em 1972, o Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) e o Supremo (STJD) deram ganho de causa ao Remo. O fato é que essa situação só se resolveria anos depois. Portanto, no momento da escolha do participante paraense, não existia legalmente um campeão paraense.
Aliás, é importante enfatizar o período em que a definição do representante paraense ocorreu, por volta de julho de 1972, antes do término do Campeonato Paraense desse ano, que só finalizaria em setembro. Dessa forma, mesmo que na lista de campeões paraenses conste o bicampeonato paraense de 1971 e 1972 para o Paysandu, quando o Remo foi eleito o representante do Pará no Campeonato Nacional, esses títulos ainda não haviam sido definidos, seja legalmente/juridicamente, seja temporalmente.
Pode-se questionar o aspecto moral dessa situação. Afinal, o Paysandu seria considerado campeão paraense posteriormente. Mas vale lembrar que em 1989, um cenário semelhante beneficiou o Paysandu. Como o título paraense de 1988 estava na justiça, para se definir o representante do estado na primeira Copa do Brasil em 1989, já que oficialmente não havia um campeão. O Paysandu venceu uma disputa seletiva contra a Tuna, se classificando para a Copa do Brasil, mesmo que anos mais tarde o título de 1988 fosse destinado ao time cruzmaltino.
5 – BENEFICIADO PELA DITADURA?
A cereja do bolo nesse revisionismo histórico é a narrativa de que o Remo era o "time dos militares" no Pará, valendo-se do fato de que o então Ministro da Educação era o remista Jarbas Passarinho. Foi ele que teria articulado a entrada do Remo no Campeonato Nacional dada a sua relação e da sua família com o clube.
Antes de tudo, é importante ressaltar que a criação do Campeonato Brasileiro é fruto do ideal de integração nacional que o governo militar pregava nos anos 70. Existia até um slogan da época que dizia o seguinte: "onde a ARENA vai mal, mais um time no Nacional" – ARENA era o partido político que sustentava a ditadura militar. A cada ano que passava, novos times eram incorporados ao campeonato, deixando-o inchado, chegando a incríveis 94 disputantes em 1979. Dessa forma, TODOS os grandes e tradicionais clubes do Brasil foram beneficiados de certa forma pelo governo militar.
Não há como negar que Jarbas Passarinho foi peça importante na articulação para que o Pará obtivesse uma vaga na elite em 1972. Mas a escolha do Remo como o representante da época obedeceu aos critérios da época, que priorizava a questão financeira, e o Leão, como era o time mais popular do estado, foi a escolha natural para isso. Além disso, o estádio Evandro Almeida, que já era o maior estádio do Pará, passou por reformas que o colocou em condições de abrigar públicos superiores a 20 mil torcedores, se tornando a sede dos times paraenses nas competições nacionais antes da inauguração do Mangueirão em 1978. Esse aumento de capacidade do Baenão só foi possível graças ao incentivo financeiro arquitetado por Jarbas Passarinho.
Entretanto, o que muita gente esquece – ou prefere ocultar – é Jarbas destinou a mesma quantia de dinheiro utilizada pelo Remo, para Paysandu e Tuna. Porém, enquanto o Leão Azul ampliou o Baenão, o Paysandu resolveu reformar a fachada da Curuzu e a Tuna, revitalizar o seu ginásio. Isso tudo foi esclarecido por Ronaldo Passarinho, sobrinho de Jarbas, à coluna do jornalista Gérson Nogueira, em 2017:
"Não havia critério para a inclusão dos clubes no Campeonato Nacional. Os clubes eram convidados pela então CBD – o Nacional de Manaus estava na competição desde 1971. Havia exigência de lotação mínima dos estádios e o Remo era o que detinha maior capacidade de público. Mesmo assim, a CBD exigiu a duplicidade das arquibancadas. Como o Remo não tinha capacidade financeira para bancar a obra, o então ministro da Educação, Jarbas Passarinho, mandou fazer o levantamento dos custos. Em seguida, liberou para Tuna e PSC a mesma quantia dada ao Remo, sendo que a Tuna ergueu o ginásio Miranda Sobrinho, premiando Jarbas com o título de benemérito. O PSC reformou toda a fachada do estádio da Curuzu e aplicou em outras obras internas, concedendo a Jarbas o título de sócio honorífico como prova de gratidão. Um dos grandes amigos do ministro era Abílio Couceiro, um dos históricos dirigentes alvicelestes, que solicitou a Jarbas a inclusão do clube no Nacional. Pedido atendido de imediato, o PSC passou a também representar o Pará".
A declaração de Ronaldo Passarinho, além de reiterar tudo o que já foi comprovado até aqui, adiciona mais uma informação importante: o Paysandu também se beneficiou politicamente da influência de Jarbas para disputar o Campeonato Brasileiro, isso em 1973. O jornal O Liberal salientou isso na sua edição de 15 de março de 1973:
"— O Paissandu está gratíssimo ao Ministro Jarbas Passarinho pelo seu desinteressado apoio e interesse em procurar incluir, valendo-se de argumentos insofismáveis, o nosso clube entre os que devem ser convidados pela CBD para participar do campeonato brasileiro de futebol, a maior competição futebolística do mundo. A atitude do nosso querido Ministro da Educação — salientou o dr. Paulo Castro, presidente do Clube Suíço, à reportagem de O LIBERAL — já era esperada por todos os paraenses. Ele é um homem devotado e voltado para os interesses de nossa terra, seja no setor educacional, cultural, industrial e mesmo no desportivo. E isto ele tem demonstrado a todo momento".
Mesmo tendo seu nome vinculado ao Clube do Remo, Jarbas Passarinho recebeu o título de Grande Benemérito do Paysandu por todos os serviços prestados. Inclusive, na reinauguração da Curuzu em 2 de fevereiro de 1974, recebeu homenagens do clube. Até surgiu a ideia de seu nome batizar o estádio bicolor, que acabou sendo chamado de Leônidas Castro.
Ainda assim, pode-se argumentar que a participação do Paysandu no Nacional de 1973 também estava assegurada desportivamente, já que era o campeão de 1972. Mas isso foi uma coincidência. Como se sabe, o fator econômico falava mais alto. Se não fosse por isso, o clube bicolor não deveria participar do campeonato de 1974, pois o campeão e o vice do Campeonato Paraense de 1973 foram Remo e Sport Belém, respectivamente.
Esses são os fatos.







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