1 – ANTECEDENTES
Quando indagado se continuaria no Clube do Remo, ainda no gramado, em meio às comemorações pelo acesso à Série B em 2024, o executivo Sérgio Papellin enfatizou que só permaneceria no clube se o pensamento fosse de subir para a Série A. A ideia era ousada, já que o Leão Azul havia acabado de retornar à Segunda Divisão, mas a diretoria investiu pesado para que fosse concretizada. Manteve o técnico Rodrigo Santana e nomes importantes na campanha do acesso, além de trazer reforços experientes.
Localmente, o Remo conseguia seus resultados sem muitas dificuldades. Mas o futebol apresentado era alvo de críticas pela torcida e mídia esportiva. O primeiro baque foi a eliminação na primeira fase da Copa Verde para o São Raimundo-RR em pleno Baenão (ainda que de portões fechados em cumprimento de punição).
Ainda assim, o Remo permanecia invicto no Campeonato Paraense e conseguiu se classificar para a segunda fase da Copa do Brasil. Infelizmente, logo depois, o Leão perderia a invencibilidade estadual e seria eliminado do torneio nacional para o Criciúma-SC, no Mangueirão, no primeiro grande teste contra um time de nível Série B.
Diante disso, Rodrigo Santana foi demitido e o Remo contratou Daniel Paulista, com larga experiência na Segunda Divisão, vindo em um período de paralisação do Campeonato Paraense. No retorno, sob o comando de Daniel, o Remo conseguiu avançar para a final estadual antes de começar a Série B.
2 – ERA DANIEL PAULISTA
Com Daniel Paulista, o Remo iniciou a sua jornada na Série B. Na estreia, deixou escapar uma vitória contra a Ferroviária no último minuto. No primeiro jogo diante do Fenômeno Azul, vitória sobre o América-MG por 2 a 0. Nas rodadas seguintes, a tônica foi a mesma: em casa, venceu Coritiba-PR (1 x 0), Amazonas (1 x 0) e Vila Nova-GO (2 x 0); fora, empatou com Botafogo-SP (2 x 2), Criciúma-SC (1 x 1) e Atlético-GO (1 x 1). Nesse intervalo de tempo, ainda foi campeão paraense sobre o Paysandu.
Esse padrão de resultados só mudou na nona rodada, com um decepcionante empate de 1 a 1 com o Volta Redonda-RJ no Mangueirão. No jogo seguinte, perdeu para o CRB-AL por 2 a 0, em Maceió (AL). Até então, o Remo era o único time de todo o campeonato que ainda não havia perdido.
Pior do que o fim da invencibilidade, foram os abandonos de Sérgio Papellin e Daniel Paulista nesse período, que preferiram ir aos seus antigos clubes, Fortaleza-CE e Sport-PE, respectivamente, afundados na zona de rebaixamento da Série A. Diante disso, o Remo anunciou Marcos Braz, ex-dirigente multicampeão pelo Flamengo-RJ, que assumiria pela primeira vez o cargo de executivo.
3 – ERA ANTÓNIO OLIVEIRA
Algumas semanas se passaram até o Remo anunciar um novo treinador. Enquanto isso, comandado interinamente por Flávio Garcia, o Leão Azul venceu o Operário-PR em Belém e perdeu para o Athletico-PR em Curitiba (PR), ambos os placares sendo 2 a 1. Após muitas negociações, o português António Oliveira foi contratado. Como curiosidade, o pai do treinador, Toni, ídolo do Benfica-POR, estreou com a camisa encarnada como jogador justamente no amistoso contra o Remo em 1968.
O primeiro desafio do novo técnico foi justamente o Re-Pa. Mesmo vivendo momentos totalmente distintos, com o Remo figurando na parte de cima da tabela e o Paysandu segurando a lanterna, os azulinos não justificaram o seu favoritismo e perderam pelo placar mínimo.
Nesse ponto, a desculpa do pouco tempo de trabalho era válida. Mas o que se observou no decorrer do campeonato era um Remo que não evoluía, com um desempenho pífio em casa – uma vitória, três empates e quatro derrotas –, compensado com um retrospecto invicto fora de casa – três vitórias e quatro empates. A gota d’água foi o revés para o Atlético-GO no retorno ao Baenão, na 27ª rodada.
António deixou o Remo com um aproveitamento péssimo de 42%, bem menor que os 56% de Daniel Paulista. Além disso, afastou o Leão da disputa pelo acesso, que assumia a oitava posição nesse momento. A situação piorou com a derrota no jogo seguinte, para o Volta Redonda-RJ, no Rio, sob o comando interino de Flávio Garcia, despencando o Remo para a 12ª posição, há sete pontos do G4, fazendo retornar ainda o fantasma do rebaixamento de 2021.
4 – ERA GUTO FERREIRA
Para tentar compensar todo o estrago feito pelo técnico anterior, o Remo contratou Guto Oliveira, conhecido como “Rei do Acesso”, que comandaria o time nos dez jogos finais. Entretanto, nesse primeiro momento, seu papel era afastar de vez a possibilidade de rebaixamento, que voltava a assombrar o Fenômeno Azul. Com as vitórias sobre o CRB-AL em casa (4 x 2) e Operário-PR fora (1 x 0), o Remo chegou aos 45 pontos, considerado ponto de corte para a salvação do descenso.
Em seguida, o Leão teria uma sequência duríssima de três jogos em Belém. No primeiro, o Remo conseguiu uma grande vitória sobre o poderoso Athletico-PR por 2 a 1, no Baenão. Depois, venceu o maior rival por 3 a 2 em um Re-Pa histórico, com um gol antológico de falta de Diego Hernandez nos acréscimos do segundo tempo, que não apenas recolocou os azulinos na disputa do acesso, como também encaminhou o rebaixamento dos bicolores. Por fim, superou o Athletic-MG, aplicando 3 a 1 no Baenão.
O Remo enfim retornava ao G4, curiosamente na icônica 33ª rodada. Agora mais difícil do que chegar, era se manter. Longe de seus domínios, o Leão Azul obteve uma vitória espetacular por 3 a 1 diante do Cuiabá-MT em plena Arena Pantanal, pondo fim ao trauma de dez anos atrás – por sinal, aquele local ainda traria mais alegrias aos azulinos na competição. O Filho da Glória e do Triunfo chegava à sexta vitória seguida – a maior sequência remista em Campeonatos Brasileiros – e se consolidava ainda mais na briga pelo acesso.
Na terceira posição com 57 pontos, uma vitória contra a Chapecoense-SC deixava o Remo com um pé e meio na Série A. E por alguns míseros segundos, essa vitória escapou das garras do Leão Azul, decepcionando a torcida que lotou o Baenão. O frustrante empate parece ter abalado o elenco, que foi irreconhecível nos dois jogos seguintes longe de Belém, empatando com o Novorizontino-SP (1 x 1) e perdendo para o Avaí-SC (3 x 1). Assim, o Remo ainda tinha chances de subir, mas já não dependeria mais de si.
4 – O JOGO DO ACESSO
Na última rodada, o Remo figurava na sexta posição, com 59 pontos. À sua frente, dos que disputavam o acesso com o Leão, estavam: Chapecoense-SC (59 pontos), Goiás (61) e Criciúma-SC (61). Portanto, para subir, o Remo precisava vencer o Goiás e torcer para uma derrota do Criciúma contra o Cuiabá-MT na Arena Pantanal (MT) ou uma derrota ou empate da Chapecoense contra o Atlético-GO na Arena Condá (SC).
Antes de tudo, o Remo precisava fazer a sua parte. Ao seu favor, teria o apoio incondicional da sua torcida, que estabeleceu o recorde de público da Série B (47.572 presentes). Uma festa nunca antes vista foi protagonizada pelo Fenômeno Azul na entrada dos jogadores em campo, com direito a dois belos mosaicos pedindo que os atletas azulinos honrassem a camisa e que Nossa Senhora de Nazaré intercedesse pelo Clube do Remo nessa última batalha.
Apesar de toda essa atmosfera favorável, foi o Goiás que abriu o placar nos primeiros minutos de jogo. Porém, aos poucos o Remo se restabelecia dentro de campo, criando inúmeras chances e empolgando cada vez mais a torcida. Quando já decorriam os acréscimos do primeiro tempo, aos 48 minutos, Pedro Rocha, craque e artilheiro da Série B, se desvencilhou dos defensores e marcou um golaço de fora da área, o seu 15º na competição, explodindo o Fenômeno Azul.
Volta o jogo para a etapa final. O torcedor azulino dividia a sua atenção entre o jogo do Remo e os jogos dos concorrentes, até que veio a informação: Cuiabá 1 x 0! O Fenômeno Azul comemorou como se fosse um gol do Remo e não era para menos: com esse placar, bastava o Leão vencer a sua partida para conquistar o tão sonhado acesso. E não demorou muito para a verdadeira comemoração acontecer: após cruzamento à meia altura de Pedro Rocha, João Pedro desviou para o fundo das redes. Depois, após mais uma assistência de Pedro Rocha, João Pedro, mais uma vez, deu números finais ao jogo: Remo 3 x 1!
A maior torcida da Amazônia, ensandecida, cantava. Minutos de tensão teimavam em não passar, até que aos 50 minutos e 45 segundos, Raphael Claus apontou para o centro do gramado. Logo depois, quase ao mesmo tempo, terminava em Cuiabá. Uma explosão de alegria tomou conta do Mangueirão e ecoou por todo o Brasil. Risos e lágrimas de alegria expressaram todo o sentimento que estava guardado dentro de cada azulino. Milhares invadiram o gramado e estenderam ao centro a bandeira de Nossa Senhora de Nazaré, gerando imagens que davam o recado a todo o país:
O REMO ESTAVA DE VOLTA À SÉRIE A!
Orgulho do Norte! – Foto: ASCOM/Remo.


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